Believe the Hype

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Todas as dúvidas acerca de ‘mbv’ se dissipam logo desde o momento em que carregamos no play e aquele divino aglomerado de cordas distorcidas que marca o arranque de ‘she found now’ escorre pelas colunas. Quase 22 anos depois de ‘Loveless’, os My Bloody Valentine (Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debby Googe e Colm Ó Cíosóig) editaram finalmente um sucessor para aquele que é hoje um dos álbuns de guitarra mais importantes de sempre. Esteve anunciado para sair nos anos 90, foi vítima do hiato alargado do grupo, voltou a ser falado por altura do regresso da banda aos palcos em meados dos noughties (uma das grandes reuniões de bandas ‘indie’ da história, a par da revitalização criativa dos Dinosaur Jr. mais ou menos pela mesma altura), depois ia sair em 2012 (“se não for editado este ano é porque fui raptado”, disse o guitarrista Kevin Shields há uns meses atrás), e foi finalmente editado de surpresa no início de Fevereiro (sem aparentes notícias de rapto). Não tem a treatralidade gótica nem a inovação formal do primeiro LP dos irlandeses, ‘Isn’t Anything’, e abandona em larga medida a claustrofobia uterina de ‘Loveless’, transcendendo a simples comparação com os discos anteriores ao mesmo tempo que funde o dinamismo rítmico e formal do primeiro com a capacidade expressiva do segundo. É um disco matemático como os anteriores nunca o foram (até porque foi mastigado e remastigado durante mais de 20 anos), e, parece-me, calculado ao pormenor para encaixar sem espinhas no repertório ao vivo da banda. mas se os primeiros momentos evocam o passado do grupo, então aquela tareia de bateria e percussão que fecha ‘mbv’ (basicamente as últimas três faixas), é algo que nunca se ouviu no catálogo dos My Bloody Valentine, excepto talvez no caso de ‘You Made Me Realise’, faixa do EP homónimo de 1988.

Alfa e Ómega para toda uma geração de bandas de ambos os lados do Atlântico, os My Bloody Valentine despoletaram o epi-fenómeno a que se veio chamar ‘shoegaze’ com o EP acima mencionado e o primeiro LP, após um purgatório artístico de vários anos enquanto uma imitação barata dos Jesus & Mary Chain. Desconhecidos até então, abriram com ‘You Made Me Realise’ e ‘Isn’t Anything’ novas possibilidades no que tocava à exploração do barulho feito com guitarras, e enquanto essa experimentação teve semelhanças mais evidentes com o que chamamos ‘rock’, bandas como os Ride, os Slowdive, os Lush, os Gala ou até a malta da SST Records (como os já referidos Dinosaur Jr.), na América, deram-se por satisfeitos em minar esse território (embora na América qualquer semelhança fosse mais coincidência). ‘Loveless’, no entanto, foi o cheque-mate para a estética iniciada com os discos anteriores. Tanto para o ‘shoegaze’ como para os My Bloody Valentine, esse tratado na utilização do estúdio como ferramenta de composição e do ruído como forma de expressão emocional foi o fim do caminho (não obstante os excelentes EPs de material das mesmas sessões editados pelo grupo nessa altura). Até à edição de ‘mbv’, pelo menos - obra de artesão não fosse pela perfeição com que foi gravado (demasiado rígida para ter sido atingida “à mão” mas com o mesmo toque pessoal e apaixonado), semelhante q.b. ao trabalho anterior da banda sem ser evidentemente referencial.

Mais sucinto e mais tridimensional do que os discos anteriores (se ‘Loveless’ revolve como uma nuvem estelar, ‘mbv’ ocupa o espaço sem o preencher mesmo nos trechos mais duros), este é um álbum que demonstra tanto as capacidades de auto-edição de Kevin Shields (compositor, produtor, guitarrista, vocalista, etc) como actualiza a sonoridade do grupo e aperfeiçoa de alguma forma as arestas que ficaram menos direitas nesse legado monumental (basta ver o quão tosca a percussão de ‘Soon’, última faixa de ‘Loveless’, parece ao lado da que propulsiona ‘wonder 2’, por exemplo). No fim, fica-se mesmo convencido de que é bom viver num mundo em que os My Bloody Valentine ainda fazem música.

My Bloody Valentine - she found now

@há Há 11 meses com 3 notas
#mbv #my bloody valentine 
@há Há 1 ano com 5 notas
#Rodriguez #Crucify Your Mind 
Meter fotos da Kate Bush só porque sim…

Meter fotos da Kate Bush só porque sim…

@há Há 1 ano com 7 notas
#kate bush 

Os Emeralds acabaram

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Fundados em 2006, os Emeralds dedicaram-se desde cedo à exploração das qualidades emocionais da música electrónica à moda antiga, inspirada sobretudo nas inovações técnicas e de composição de pessoas como Manuel Gottsching ou até Klaus Schulze, mais do que nas dinâmicas surgidas após o aparecimento do techno como matriz dominante da música feita com máquinas. Acabaram ontem, a meio de uma digressão.

Mark Mcguire, Steve Hautschildt e John Elliott - os Emeralds - editaram uma porrada de singles em CDr pela Wagon/Gneiss Things, quatro álbuns incríveis (basicamente entre Solar Bridge, pela Hanson, e Does it Look Like I’m Here?, pela Editions Mego) e um mais ou menos (Just to Feel Anything, do ano passado, pela Mego, editora de malta como o Oneohtrix Point Never), e pelo caminho deixaram um espólio de canções e texturas sonoras como nenhum outro, numa adaptação e numa reverente actualização de sons e modelos de construção musical mais antigos, mas que ainda assim os Emeralds conseguiram nos seus melhores momentos tornar verdadeiramente seus. E diga-se, nunca nenhum desses pioneiros do rock electrónico fez uma faixa como a Candy Shoppe.

http://www.youtube.com/watch?v=yUPJofuMNtE

(Candy Shoppe, ou como passar de simples a épico em pouco mais de quatro minutos)

@há Há 1 ano com 2 notas
#Emeralds 
@Há 1 ano
#David Bowie #Where Are We Now? 

Balanço atrasado dos melhores discos de 2012

Os poucos discos sobre os quais escrevi até agora têm entrada directa na minha lista de álbuns de 2012, daí poupar-me à redundância e limitar este post somente a obras do ano passado sobre as quais, por preguiça, ainda não me pronunciei. Aqui vão, então, mais cinco discos do ano passado para ter como referência, ainda que estas recomendações só cheguem mesmo no fim de Janeiro, cause that’s how i roll.

Kendrick Lamar - Good Kid, m.A.A.d city 

Se me apontarem uma pistola à cabeça e me perguntarem qual é o melhor disco de 2012, provavelmente devo balbuciar qualquer coisa parecida com o nome deste segundo disco do Kendrick Lamar. Porquê? Nem eu sei bem, Good Kid, m.A.A.d City não tem os melhores versos de um disco de hip-hop deste ano (o R.A.P. Music do Killer Mike dá-lhe luta), e é pouco provável que deixe alguém siderado à primeira audição. Mesmo assim, tem grandes canções, um arco emocional (e narrativo, sei lá) perfeitamente executado e a pose do miúdo bonzinho que veio de um sítio mau é absolutamente genuína. Aliás, é por aí que isto se distingue, e deve ser por isso também que parece que este ano toda a gente andou a ouvir isto, esquece lá os A$ap Rockies da vida. Deve ser asneira, mas desde o Marshall Mathers LP (outro disco do caraças em que o Dr. Dre teve mão) que não me apercebia de um disco de hip-hop tão transversal à generalidade do povinho, sem r&b’s da tanga nem poses de gangsta chique falsificado. E quantos tipos do hip-hop hoje é que se podem gabar de não ter espaço no disco para a Lady Gaga? A realness aqui não é sobre vender coca, é sobre ser boa pessoa, e isso é fixe.

Kendrick Lamar - Swimming Pools (Drank)

Actress - R.I.P

A primeira coisa que pensei quando ouvi este mais recente álbum do Actress (o produtor e DJ londrino Daniel Cunningham) foi “este gajo é maluco”. Não conheço nada dele anterior ao R.I.P., confesso, e o único contexto que tenho para escrever sobre isto é o meu diminuto conhecimento da música de dança britânica dos dias de hoje, mas este foi o único disco deste ano que, para mim, me fez pensar que nunca, de facto, ouvi nada assim antes. Claro, há aqui referências mais ou menos rebuscadas que se podem fazer (Burial, Kode 9, outras cenas mais abstractas saídas do Dubstep, se bem que o tratamento que o Actress dá ao espaço e à atmosfera seja completamente diferente do de ambos os supracitados), ainda que em termos de pura desconstrução de todas as estruturas e dinâmicas convencionais da música de dança, este tipo esteja a anos luz de toda a gente. Até nisso a capa e o styling de R.I.P. são um bocado traiçoeiros, entra-se a esperar o Untrue, sai-se com o Another Green World.

Actress - Serpent

Andy Stott - Luxury Problems

Outro tipo que começou a fazer techno para deixar para trás as configurações habituais da música de dança, Andy Stott (outro britânico, mas de Manchester) passou do dub abrasivo de Pass Me By e We Stay Together (os dois de 2011) para abraçar o uso da textura, da atmosfera e do espaço nos idiomas electrónicos. Feito quase todo à volta da voz da vocalista convidada Allison Skidmore - aqui loopada, cortada, repetida, esticada e manipulada quase até ao limite do reconhecível - Luxury Problems é um disco vivo, num sentido quase biológico. A austeridade da produção e a multiplicação de vozes provocam ao longo do álbum um efeito semelhante a estar em silêncio absoluto a ouvir a própria respiração (ou a de outra pessoa, no caso), por mais desvios para áreas próximas do industrial ou da musique concrete que possam acontecer por aqui. Mais música clássica contemporânea do que techno ou dub ou ou que quer lhe queiram chamar, ainda que às vezes provoque o mesmo tipo de impacto físico. Disco incrível.

Andy Stott - Hatch the Plan

Bill Fay - Life Is People

"Cada campo de batalha é um pasto para as ovelhas / Quando tudo desaparecer, os palácios e os desfiles", corre o verso (mal traduzido) de Healing Day, uma das canções de Life Is People, o regresso aos discos de Bill Fay ao fim de mais de 40 anos. Desde Time of the Last Persecution (1971), Bill Fay foi primeiro ignorado pelo público e pela indústria, depois tirou umas décadas para fazer filhos e depois ter netos, foi citado como influência totémica por malta como os Wilco, viu Tomorrow Tomorrow and Tomorrow ser editado umas boas três décadas após ter sido gravado, e no ano passado voltou a juntar-se a antigos parceiros e a novos admiradores para gravar este Life is People. A que é que isto soa? Basicamente ao melhor disco de alt-country que já ouviram nas vossas vidas, escrito por um velhote de 70 anos que só quer agradecer pelo facto de o terem deixado ter feito parte desta merda toda durante tanto tempo, e que se o deixarem ainda fica por cá mais uns anos.

Bill Fay - The Neverending Happening

 

Laurel Halo - Quarantine

Concorrente para melhor capa do ano, juntamente com Visions, Quarantine é, ainda assim, um bicho bem diferente desse disco. É igualmente extraterrestre, mas onde a insularidade da Grimes surge mais numa de “há uma festa na minha casa e só eu é que estou convidada”, a da Laurel Halo é mais glaciar, mais austera, mais ansiosa, apesar da relativa ausência de actividade. Em Quarantine, Laurel Halo fez um disco que evita deliberadamente o previsível, mas isso só serve para tornar os trechos melódicos mais memoráveis por contraste, quando o álbum é ouvido todo de seguida (e, a sério, não há outra forma de ouvir isto). O mais fixe, mesmo assim, é a perfeição estética da coisa, desde a música (que é imaculada, sendo o que é), à capa, às letras: tudo isto tem o clima adequado de pavor tecnológico e a dose propícia de ficção científica. Enquanto o James Ferraro fica todo contente a loopar apitos do gchat, a Laurel Halo é mais passível de ter uma depressão a pensar na distância e no isolamento que são inerentes à nossa existência virtual, para resumir. E isso é fixe.

Laurel Halo - Light + Space

 

@há Há 1 ano com 5 notas
#Kendrick Lamar #Actress #Andy Stott #Bill Fay #Laurel Halo #Discos de 2012 

Santos da casa não fazem milagres

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Sixto Rodriguez foi uma espécie de Zeca Afonso na África do Sul no tempo do Apartheid, pronto. Escrevo assim porque, em primeiro lugar, não encontrei uma maneira melhor de começar este texto e, em segundo, porque o facto é que Sixto (porque era o sexto filho de uma família de emigrantes mexicanos radicada na América) não era sul-africano (como se deduz pelos parêntesis antes destes) nem tão pouco descobriu que uma geração inteira de antigos hippies tinha ou já tinha tido altares em sua honra escondidos no sótão até 1998, quando a sua filha mais nova descobriu um fansite sul-africano num recanto obscuro da internet. 

Pouca gente o sabia, mas Rodriguez, nome com que assinou os dois LPs que hoje constituem o grosso do seu legado, escreveu como poucos sobre a degradação urbana e humana na América industrial, na cidade de Detroit, onde nasceu, em particular, e foi esse olhar sobre a desgraça que é transversal à humanidade que fez com que multidões congregassem à volta da sua música no outro lado do mundo, meia década após o fim da sua carreira. Na América, Rodriguez durou apenas quatro anos, entre o single I’ll Slip Away (1967) e o segundo LP, Coming From Reality (1971), mas é Cold Fact (1970) que é hoje considerado a sua obra-prima.

Pessoalmente, descobri-o numa reportagem que o 60 Minutos lhe dedicou após a estreia do documentário Searching for Sugarman (de 2012, é uma alegria de filme), do sueco Malik Bendjelloul, que segue dois fãs sul-africanos que investigaram o rumor de que Rodriguez tinha desaparecido do mapa porque de facto estaria morto desde meados dos anos 80 (ter-se-ia auto-imolado em palco, diziam), e afinal descobriram que Rodriguez estava vivo e de relativamente boa saúde a viver uma vida santinha na América. O que levou estes dois tipos a irem atrás de um músico cuja relevância se ficou pelo tempo em que tinham 5 anos, e um realizador sueco a ir, por sua vez, atrás destes dois malucos, explica-se com o mesmo motivo que tornou Rodriguez um ícone geracional num país a atravessar uma revolução - a simples sinceridade de alguém que reconheceu através da música a bondade e o mundo interior de um homem que apanhou em canções o espírito de um tempo.

Rodriguez - Sugar Man

http://www.youtube.com/watch?v=HyrnXa90S6w

(Este texto surgiu porque o Rodriguez vai ao Primavera Sound)

@Há 1 ano
#Rodriguez 
@Há 1 ano
#emeralds #candy shoppe 

É sempre bom…

Muito obrigado à equipa do Tumblr Portugal pela referência.

http://equipaportugal.tumblr.com/post/40853150869/blogues-maravilha-musica

@Há 1 ano

Ídolo

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Pode parecer estúpido, mas há poucas coisas tão importantes na minha vida quanto a música deste gajo. Ninguém apanhou a desolação urbana e a exaustão mental tão bem como ele na Warszawa (e no Low todo, mas ok), nem ninguém foi um ídolo da juventude tão messiânico e convincente como ele cinco anos antes dessa obra-prima, em 1972. Nunca subscrevi ao cliché do camaleão, mas nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem à mudança das circunstâncias, nem que tivesse conseguido estar tanto tempo seguido a inventar o futuro (71-81, alguém?), ou que (salvo honrosas excepções) se tivesse adaptado tão bem ao fim da juventude. Ontem, o meu ídolo fez 66 anos, lançou a primeira canção em nome próprio em dez anos e foda-se, que canção… Teve que chegar a velho para perceber que entre o passado e o presente não há relação alguma de causalidade e que o que nos aconteceu só nos define tangencialmente e que o presente é o momento chave das nossas vidas. É uma lição fodida que eu ainda não aprendi, e que a canção vai revelando aos bocadinhos até chegar àquele supremo minuto final. Onde é que estamos? Estamos aqui, uns com os outros.

@há Há 1 ano com 2 notas
#David Bowie #Where are we now