Os poucos discos sobre os quais escrevi até agora têm entrada directa na minha lista de álbuns de 2012, daí poupar-me à redundância e limitar este post somente a obras do ano passado sobre as quais, por preguiça, ainda não me pronunciei. Aqui vão, então, mais cinco discos do ano passado para ter como referência, ainda que estas recomendações só cheguem mesmo no fim de Janeiro, cause that’s how i roll.

Kendrick Lamar - Good Kid, m.A.A.d city
Se me apontarem uma pistola à cabeça e me perguntarem qual é o melhor disco de 2012, provavelmente devo balbuciar qualquer coisa parecida com o nome deste segundo disco do Kendrick Lamar. Porquê? Nem eu sei bem, Good Kid, m.A.A.d City não tem os melhores versos de um disco de hip-hop deste ano (o R.A.P. Music do Killer Mike dá-lhe luta), e é pouco provável que deixe alguém siderado à primeira audição. Mesmo assim, tem grandes canções, um arco emocional (e narrativo, sei lá) perfeitamente executado e a pose do miúdo bonzinho que veio de um sítio mau é absolutamente genuína. Aliás, é por aí que isto se distingue, e deve ser por isso também que parece que este ano toda a gente andou a ouvir isto, esquece lá os A$ap Rockies da vida. Deve ser asneira, mas desde o Marshall Mathers LP (outro disco do caraças em que o Dr. Dre teve mão) que não me apercebia de um disco de hip-hop tão transversal à generalidade do povinho, sem r&b’s da tanga nem poses de gangsta chique falsificado. E quantos tipos do hip-hop hoje é que se podem gabar de não ter espaço no disco para a Lady Gaga? A realness aqui não é sobre vender coca, é sobre ser boa pessoa, e isso é fixe.
Kendrick Lamar - Swimming Pools (Drank)

Actress - R.I.P
A primeira coisa que pensei quando ouvi este mais recente álbum do Actress (o produtor e DJ londrino Daniel Cunningham) foi “este gajo é maluco”. Não conheço nada dele anterior ao R.I.P., confesso, e o único contexto que tenho para escrever sobre isto é o meu diminuto conhecimento da música de dança britânica dos dias de hoje, mas este foi o único disco deste ano que, para mim, me fez pensar que nunca, de facto, ouvi nada assim antes. Claro, há aqui referências mais ou menos rebuscadas que se podem fazer (Burial, Kode 9, outras cenas mais abstractas saídas do Dubstep, se bem que o tratamento que o Actress dá ao espaço e à atmosfera seja completamente diferente do de ambos os supracitados), ainda que em termos de pura desconstrução de todas as estruturas e dinâmicas convencionais da música de dança, este tipo esteja a anos luz de toda a gente. Até nisso a capa e o styling de R.I.P. são um bocado traiçoeiros, entra-se a esperar o Untrue, sai-se com o Another Green World.
Actress - Serpent

Andy Stott - Luxury Problems
Outro tipo que começou a fazer techno para deixar para trás as configurações habituais da música de dança, Andy Stott (outro britânico, mas de Manchester) passou do dub abrasivo de Pass Me By e We Stay Together (os dois de 2011) para abraçar o uso da textura, da atmosfera e do espaço nos idiomas electrónicos. Feito quase todo à volta da voz da vocalista convidada Allison Skidmore - aqui loopada, cortada, repetida, esticada e manipulada quase até ao limite do reconhecível - Luxury Problems é um disco vivo, num sentido quase biológico. A austeridade da produção e a multiplicação de vozes provocam ao longo do álbum um efeito semelhante a estar em silêncio absoluto a ouvir a própria respiração (ou a de outra pessoa, no caso), por mais desvios para áreas próximas do industrial ou da musique concrete que possam acontecer por aqui. Mais música clássica contemporânea do que techno ou dub ou ou que quer lhe queiram chamar, ainda que às vezes provoque o mesmo tipo de impacto físico. Disco incrível.
Andy Stott - Hatch the Plan
Bill Fay - Life Is People
“Cada campo de batalha é um pasto para as ovelhas / Quando tudo desaparecer, os palácios e os desfiles”, corre o verso (mal traduzido) de Healing Day, uma das canções de Life Is People, o regresso aos discos de Bill Fay ao fim de mais de 40 anos. Desde Time of the Last Persecution (1971), Bill Fay foi primeiro ignorado pelo público e pela indústria, depois tirou umas décadas para fazer filhos e depois ter netos, foi citado como influência totémica por malta como os Wilco, viu Tomorrow Tomorrow and Tomorrow ser editado umas boas três décadas após ter sido gravado, e no ano passado voltou a juntar-se a antigos parceiros e a novos admiradores para gravar este Life is People. A que é que isto soa? Basicamente ao melhor disco de alt-country que já ouviram nas vossas vidas, escrito por um velhote de 70 anos que só quer agradecer pelo facto de o terem deixado ter feito parte desta merda toda durante tanto tempo, e que se o deixarem ainda fica por cá mais uns anos.
Bill Fay - The Neverending Happening

Laurel Halo - Quarantine
Concorrente para melhor capa do ano, juntamente com Visions, Quarantine é, ainda assim, um bicho bem diferente desse disco. É igualmente extraterrestre, mas onde a insularidade da Grimes surge mais numa de “há uma festa na minha casa e só eu é que estou convidada”, a da Laurel Halo é mais glaciar, mais austera, mais ansiosa, apesar da relativa ausência de actividade. Em Quarantine, Laurel Halo fez um disco que evita deliberadamente o previsível, mas isso só serve para tornar os trechos melódicos mais memoráveis por contraste, quando o álbum é ouvido todo de seguida (e, a sério, não há outra forma de ouvir isto). O mais fixe, mesmo assim, é a perfeição estética da coisa, desde a música (que é imaculada, sendo o que é), à capa, às letras: tudo isto tem o clima adequado de pavor tecnológico e a dose propícia de ficção científica. Enquanto o James Ferraro fica todo contente a loopar apitos do gchat, a Laurel Halo é mais passível de ter uma depressão a pensar na distância e no isolamento que são inerentes à nossa existência virtual, para resumir. E isso é fixe.
Laurel Halo - Light + Space
@há Há 3 meses com 3 notas
#Kendrick Lamar #Actress #Andy Stott #Bill Fay #Laurel Halo #Discos de 2012

Sixto Rodriguez foi uma espécie de Zeca Afonso na África do Sul no tempo do Apartheid, pronto. Escrevo assim porque, em primeiro lugar, não encontrei uma maneira melhor de começar este texto e, em segundo, porque o facto é que Sixto (porque era o sexto filho de uma família de emigrantes mexicanos radicada na América) não era sul-africano (como se deduz pelos parêntesis antes destes) nem tão pouco descobriu que uma geração inteira de antigos hippies tinha ou já tinha tido altares em sua honra escondidos no sótão até 1998, quando a sua filha mais nova descobriu um fansite sul-africano num recanto obscuro da internet.
Pouca gente o sabia, mas Rodriguez, nome com que assinou os dois LPs que hoje constituem o grosso do seu legado, escreveu como poucos sobre a degradação urbana e humana na América industrial, na cidade de Detroit, onde nasceu, em particular, e foi esse olhar sobre a desgraça que é transversal à humanidade que fez com que multidões congregassem à volta da sua música no outro lado do mundo, meia década após o fim da sua carreira. Na América, Rodriguez durou apenas quatro anos, entre o single I’ll Slip Away (1967) e o segundo LP, Coming From Reality (1971), mas é Cold Fact (1970) que é hoje considerado a sua obra-prima.
Pessoalmente, descobri-o numa reportagem que o 60 Minutos lhe dedicou após a estreia do documentário Searching for Sugarman (de 2012, é uma alegria de filme), do sueco Malik Bendjelloul, que segue dois fãs sul-africanos que investigaram o rumor de que Rodriguez tinha desaparecido do mapa porque de facto estaria morto desde meados dos anos 80 (ter-se-ia auto-imolado em palco, diziam), e afinal descobriram que Rodriguez estava vivo e de relativamente boa saúde a viver uma vida santinha na América. O que levou estes dois tipos a irem atrás de um músico cuja relevância se ficou pelo tempo em que tinham 5 anos, e um realizador sueco a ir, por sua vez, atrás destes dois malucos, explica-se com o mesmo motivo que tornou Rodriguez um ícone geracional num país a atravessar uma revolução - a simples sinceridade de alguém que reconheceu através da música a bondade e o mundo interior de um homem que apanhou em canções o espírito de um tempo.
Rodriguez - Sugar Man
http://www.youtube.com/watch?v=HyrnXa90S6w
(Este texto surgiu porque o Rodriguez vai ao Primavera Sound)
@Há 3 meses
#Rodriguez

Pode parecer estúpido, mas há poucas coisas tão importantes na minha vida quanto a música deste gajo. Ninguém apanhou a desolação urbana e a exaustão mental tão bem como ele na Warszawa (e no Low todo, mas ok), nem ninguém foi um ídolo da juventude tão messiânico e convincente como ele cinco anos antes dessa obra-prima, em 1972. Nunca subscrevi ao cliché do camaleão, mas nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem à mudança das circunstâncias, nem que tivesse conseguido estar tanto tempo seguido a inventar o futuro (71-81, alguém?), ou que (salvo honrosas excepções) se tivesse adaptado tão bem ao fim da juventude. Ontem, o meu ídolo fez 66 anos, lançou a primeira canção em nome próprio em dez anos e foda-se, que canção… Teve que chegar a velho para perceber que entre o passado e o presente não há relação alguma de causalidade e que o que nos aconteceu só nos define tangencialmente e que o presente é o momento chave das nossas vidas. É uma lição fodida que eu ainda não aprendi, e que a canção vai revelando aos bocadinhos até chegar àquele supremo minuto final. Onde é que estamos? Estamos aqui, uns com os outros.
@há Há 4 meses com 2 notas
#David Bowie #Where are we now